Alguns meses depois veio o acidente de carro que matou os pais de Callahan, seu irmão e também sua visão. Durante vinte anos ele carregou aquela culpa completamente sozinho.
Eu estava chorando antes mesmo de perceber que as lágrimas haviam começado a cair. Minha noite de casamento se abriu como uma sala cheia de fantasmas que eu jamais convidei.
“Por que não me contou antes?”, perguntei.
Callahan deu uma risada vazia.
“No começo eu não tinha certeza de que era você. Depois você me disse seu nome… e eu fiquei com medo.”
Ele confirmou suas suspeitas através de um amigo. A mulher que amava era a garota da explosão. Tentou se afastar. Não conseguiu.
“Eu continuava pensando que, se contasse cedo demais, você iria embora antes que eu tivesse a chance de te amar direito, Merry.”
“Você roubou minha escolha”, sussurrei.
Callahan abaixou a cabeça.
“Você me deixou casar com você sem me contar o que sabia. O que fez.”
“Eu sei.”
Essa era a parte insuportável. Ele não estava se escondendo atrás de desculpas. Sabia exatamente o quanto aquela verdade me machucaria, e mesmo assim esperou até depois dos votos e das alianças para confessar.
Parte de mim queria gritar com ele. Outra parte ainda queria tocá-lo, porque ele era o mesmo homem que cinco minutos antes havia me chamado de linda.
“Preciso de ar”, sussurrei.
Callahan se ofereceu para dormir no quarto de hóspedes. Mal o ouvi. Peguei meu casaco e saí com lágrimas escorrendo pelo rosto, uma noiva caminhando sozinha pela noite congelante com grampos ainda presos no cabelo e a vida inteira se desfazendo sob a renda.
Acabei diante da minha casa de infância. A casa ainda estava de pé, embora vazia agora. Liguei para Lorie da calçada porque, às vezes, apenas a pessoa que conheceu você antes das cicatrizes consegue suportar o que vem depois delas.
Ela chegou em menos de dez minutos.
“Parte de mim quer odiá-lo”, admiti depois de contar tudo. “Mas outra parte não consegue esquecer a maneira como ele me fazia sentir vista.”
Lorie me abraçou e não disse nada, porque nada seria suficiente.
Passei a noite no sofá dela quase sem dormir. Pela manhã, eu sabia de uma coisa: fugir da verdade já havia roubado demais da minha vida. Eu não deixaria que roubasse essa decisão também.
Vesti um jeans velho e um suéter emprestado do armário de Lorie.
Ela me observou calçar os sapatos.
“Você tem certeza?”
“Não”, admiti. “Mas vou assim mesmo.”
Ela sorriu com os olhos cheios d’água.
“Tenho orgulho de você.”
Fui andando até o apartamento de Callahan porque precisava do ar frio e de tempo para pensar. Buddy me ouviu primeiro, correndo pelo chão antes mesmo que eu chegasse ao topo da escada. No instante em que abri a porta, ele quase me derrubou de tanta felicidade.
Meu marido estava na cozinha. Virou a cabeça no momento em que entrei.
“Merry… você voltou.”
“Como sabia que era eu?”, perguntei.
Um sorriso triste apareceu em seu rosto.
“Buddy soube primeiro. Meu coração soube depois.”
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